O menino do Vale vai à Copa

São José dos Campos tem motivos de sobra para se orgulhar. Mas poucos são tão concretos, tão humanos e tão bem construídos quanto Carlos Henrique Casimiro — o Casemiro, o Carlinho do Jardim Guimarães.

Quem é do Vale conhece essa história. Não a do jogador consagrado, dos cinco títulos de Champions e das convocações para a Seleção. Conhece a outra — a que começa num campinho de terra, de frente para a casa da tia Miriam. A que começa com Dona Magda, diarista, criando três filhos sozinha, sem pai para dividir a responsabilidade — o pai que o Carlinho jamais chegou a conhecer, e sobre quem guardava em casa um painel silencioso como única homenagem. A que começa com uma avó evangélica lavando chuteiras surradas e avisando ao neto: “Menino, se você não for jogador de futebol, você vai ver.” E o menino respondia, sempre: “Eu vou ser, vó.”

Não foi sorte. Foi o técnico Moreira, que parou o carro num dia qualquer no bairro de Santana, viu um menino jogando bola na rua e reconheceu ali algo que não se ensina. Trouxe o Carlinho para a escolinha — e o que era para ser só futebol virou muito mais. Nos anos seguintes, Moreira carregou o menino nas costas como um pai, comprou roupas e chuteiras do próprio bolso e, nos dias em que o Carlinho chegava com fome — numa casa onde às vezes não havia o que comer nem para o café —, simplesmente dizia: “Vem pra casa.”

O talento se revelou quase por acidente. Num treino chuvoso, com jogadores faltando, Moreira escalou o garoto no gol. A impressão foi tão imediata que, no dia seguinte, já pediu os documentos para inscrevê-lo nos campeonatos da cidade. O número que resume a precocidade: mesmo como marcador — posição defensiva —, o Carlinho marcava entre 10 e 15 gols por jogo.

Por indicação de Moreira, foi aprovado nas peneiras do São Paulo. Chegou tímido, interiorano, caipira. Enfrentou uma hepatite logo no início, ficou meses sem treinar, mas encontrou no treinador Bruno Petri um novo apoio para atravessar o período mais difícil. Quando se recuperou, virou joia da base são-paulina. Aos 16 anos, no primeiro contrato profissional, sua primeira preocupação não foi carro nem roupa nova: foi ajudar a comprar uma casa modesta em São José dos Campos para a família. O menino que cresceu sem teto seguro garantiu, primeiro, um lar para os seus.

São Paulo, Real Madrid — cinco Champions, três Mundiais de Clubes —, Manchester United. Hoje, aos 34 anos, Casemiro chega à sua terceira Copa consecutiva como capitão da Seleção, voz da experiência num elenco que une juventude e qualidade. Ficou fora da Copa América de 2024, ouviu que o ciclo tinha acabado. Mas quando Ancelotti — o mesmo que o conhece desde o Real Madrid — assumiu a Amarelinha em 2025, o Carlinho voltou. É teimoso assim, como gente do Vale costuma ser.

Às vésperas do Mundial, Dona Magda entregou ao filho o amuleto da avó falecida — um olhinho de vidro que a família sempre usou como proteção. Casemiro o recebeu emocionado e brincou que aquilo pode valer mais do que toda a sua câmara hiperbárica em Manchester. Quem conhece a história da família não acha graça não. Acha que é verdade.

O Vale do Paraíba vai estar inteiro na arquibancada — nem que seja de casa, na frente da televisão. Porque Casemiro não é só um jogador da Seleção. É um dos nossos. É o Carlinho do Guimarães que prometeu à vó que ia ser jogador, que pediu à tia para aprender o hino nacional porque “um dia eu vou estar lá jogando pela Seleção Brasileira” — e foi.

Agora falta o que ainda não tem em sua carreira: a sexta estrela. E o Vale torce junto.

https://futebol.fandom.com/pt-br/wiki/Casemiro


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