Racismo em campo: novo episódio no Mundial de Clubes reacende debate e protocola ação inédita da arbitragem na competição.

Foto: Reuters


O futebol, palco de paixões globais, voltou a ser cenário de um episódio lamentável: o racismo. Durante a partida entre Real Madrid e Pachuca, realizado neste domingo (22), pelo Mundial de Clubes da FIFA, o zagueiro alemão Antonio Rüdiger denunciou ter sido alvo de um insulto racista por parte do defensor argentino Gustavo Cabral, do time mexicano e levou o árbitro brasileiro Ramon Abatti Abel a acionar o protocolo antirracismo da FIFA, sinalizado por um gesto em “X” com os braços — movimento inédito nesta edição do torneio. O caso se junta a uma série de episódios marcantes que evidenciam a persistência do racismo no esporte mais popular do planeta e a denúncia gerou grande repercussão internacional.

Entenda:

 O episódio ocorreu nos acréscimos do segundo tempo. Visivelmente indignado, Rüdiger afirmou que Cabral o chamou de “negro de merda”, insulto de cunho racial. O árbitro, ao ouvir a queixa, imediatamente cruzou os braços acima da cabeça, ativando formalmente o protocolo da FIFA, apesar disso, como o ato não foi presenciado diretamente pela arbitragem e não houve confirmação via VAR, o jogo não foi interrompido por completo. A partida seguiu até o apito final, mas o caso foi registrado oficialmente e será alvo de investigação.

 O jogador do Pachuca, Gustavo Cabral, negou qualquer conotação racista. Em entrevista após o jogo, afirmou que chamou Rüdiger de “cagón de mierda”, uma expressão comum entre argentinos para provocar o adversário, mas que em nenhum momento utilizou termos raciais.

“Pongo las manos en el fuego por Cabral”, disse o técnico Jimmy Lozano, do Pachuca, reforçando sua confiança no jogador. Já o treinador do Real Madrid expressou apoio irrestrito ao zagueiro alemão, afirmando que se confirmado, trata-se de uma atitude “inaceitável e vergonhosa”.

Foto: Reuters

Como funciona o protocolo:


O Three-Step Procedure (Procedimento em Três Etapas), instituído pela FIFA em 2019, tem como objetivo combater manifestações discriminatórias em partidas oficiais. O protocolo prevê:

1. Paralisação da partida e anúncio no estádio pedindo o fim das ofensas.


2. Suspensão temporária do jogo e retirada dos jogadores de campo, caso o comportamento persista.


3. Encerramento da partida, caso os ataques continuem mesmo após os alertas.

A sinalização com os braços em X foi adotada oficialmente em 2024 como gesto universal de denúncia por atletas e árbitros. A FIFA incentiva que jogadores, técnicos e arbitragem utilizem o gesto como pedido imediato de ação quando há percepção de racismo.

Foto: Divulgação CBF |Rafael Ribeiro -implementado na Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA Colômbia 2024.



Racismo no futebol: casos que marcaram o mundo

O episódio se soma a uma série de casos emblemáticos que escancaram o racismo estrutural no futebol:

  • Dani Alves (2021): ao ser alvo de uma banana jogada por torcedores do Villarreal, o lateral brasileiro comeu a fruta em protesto — gesto que ganhou repercussão global.
  • Vinícius Júnior (2023): em diversos jogos da La Liga, o jogador do Real Madrid foi vítima de ofensas racistas, especialmente em partidas contra o Valencia. O caso teve forte impacto diplomático entre Brasil e Espanha.
  • Kevin-Prince Boateng (2013): abandonou uma partida após sofrer insultos na Itália. Sua atitude foi apoiada por companheiros e motivou discussões sobre abandonar o jogo como forma de protesto.
  • Caso do zagueiro brasileiro Márcio (2005): considerado um dos primeiros registros documentados no futebol sul-americano, quando torcedores imitaram sons de macaco em jogo do Atlético-PR

A atitude do árbitro Ramon Abatti Abel foi considerada correta e protocolar, embora alguns comentaristas argumentem que o jogo poderia ter sido suspenso preventivamente. O uso do gesto em “X” serviu para comunicar a gravidade da denúncia, sinalizando à FIFA que a situação exigirá apuração rigorosa.

Reflexão necessária

 O racismo no futebol não é um problema isolado. Ele reflete estruturas sociais, desigualdades históricas e práticas naturalizadas. O gesto de um árbitro ou a denúncia de um jogador não são apenas reações pontuais: são chamados urgentes à transformação cultural.

 O caso Pachuca x Real Madrid não termina no apito final — ele segue em análise, em manchetes e, principalmente, nas consciências. A bola continua rolando, mas a luta contra o racismo precisa ser constante, firme e global.

“Ninguém nasce odiando outra pessoa por sua cor da pele, sua origem ou sua religião. As pessoas podem aprender a odiar e, se podem aprender a odiar, pode-se ensiná-las a aprender a amar. O amor chega mais naturalmente ao coração humano que o contrário.”


Nelson Mandela


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