
Fonte: Terra
O futebol e suas reviravoltas, suas artes, seus dramas, suas entrelinhas… chame como quiser. O fato é que, após 10 anos, Luis Enrique é novamente campeão da Champions League. E o enredo, meus amigos, nem os melhores roteiristas de Hollywood poderiam descrever o que o futebol reserva para os fãs e amantes desse esporte maravilhoso.
Há 10 anos, o técnico espanhol já havia vencido o título continental comandando o Barcelona de Messi, Suárez e Neymar. Na ocasião, a comemoração ao lado de sua filha Xana Martínez marcou aquela conquista, pois a filha do treinador era como uma mascote do time, adorada por jogadores e torcedores.
Infelizmente, a vida prega peças, e em 2019, quatro anos depois, Luis Enrique perdeu sua filha devido a um raro tumor ósseo. Na época da tragédia, Luis Enrique era técnico da Espanha, ficando afastado por dois meses do cargo. Ele retornou para comandar a equipe, que terminou sua jornada após a eliminação da Copa do Mundo em 2022.
Quase um ano sem trabalhar, recebeu uma proposta para assumir um PSG sem grandes estrelas. O clube, que antes fazia altos investimentos em grandes jogadores, resolveu tomar um caminho alternativo, buscando montar um time jovem e, ao mesmo tempo, competitivo. A missão coube a Luis Enrique, que sabe trabalhar com jovens jogadores e reestruturar do zero um elenco que, com astros como Messi, Mbappé e Neymar, viu o sonho de ser campeão da Champions League frustrado.
Seguindo um caminho inverso de trazer astros para tentar conquistar o título inédito, a aposta veio em contratações de jogadores que se destacavam por seus ex-clubes e em apostar na juventude.
Após duas temporadas no Napoli, jogando muita bola, Khvicha Kvaratskhelia surpreendeu a todos ao fechar com o clube francês, tendo em vista várias propostas de times da Premier League e La Liga. Recém-contratado, parecia que já estava no clube há anos e, ao longo da temporada, mostrou-se decisivo e uma peça crucial no esquema de Luis Enrique.
Destacando-se na mesma Liga, o PSG foi em busca de dois jovens talentos que estavam vivendo uma excelente fase, o primeiro foi no rival Lyon. Bradley Barcola chegou como uma aposta, mas ao longo dos jogos foi ganhando espaço e firmando sua titularidade com seus gols e assistências, confirmando o excelente investimento feito pelo PSG.
Com 18 anos e jogando muita bola pelo Rennes, Désiré Doué despertou o interesse do PSG, que não perdeu tempo e trouxe o jovem francês. Nas mãos de Luis Enrique e com seu talento, ele vem sendo muito bem lapidado e se destacando não só pelo PSG, mas também pela seleção francesa, com possibilidades futuras de brigar com Lamine Yamal como possíveis promessas que já estão se tornando realidades jogo após jogo.
Não menos importante, esses jogadores se juntaram a Ousmane Dembélé, que não teve no Barcelona a ascensão que se esperava quando chegou – ele era visto como uma das grandes promessas do clube, mas lesões cercaram o francês, que não rendeu o esperado no clube espanhol. Luis Enrique não só conseguiu resgatar o futebol de Dembélé, mas o francês fez uma de suas melhores temporadas, sendo decisivo em vários jogos e vivendo uma temporada artilheira, com assistências importantes.
Somando tudo isso a um treinador que tem como características montar times rápidos, com forte domínio de jogo, sufocando o adversário, que gosta de ficar com a bola, proporcionando ataque e domínio de posse de bola, motivado por um projeto de reformulação e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para Luis Enrique voltar por cima após uma fraca campanha com a seleção espanhola.
O título veio após anos e anos tentando o inédito troféu do principal torneio europeu de clubes, a tão sonhada UEFA Champions League, depois de não tomar conhecimento da Inter de Milão e vencer por 5×0. Gols marcados por A. Hakimi, D. Doué (2), K. Kvaratskhelia e S. Mayulu. Frustração pelo lado dos italianos, euforia e festa para os franceses. Título importante para os brasileiros também, com Marquinhos, o único remanescente daquela final de Champions League onde o PSG perdeu o título para o Bayern de Munique (1×0), e Beraldo, jovem e promissor zagueiro que vem se destacando a cada oportunidade.
Todos sabemos que, graças a você, Luis Enrique, o PSG subiu de patamar. O PSG já não é mais visto como um time “do quase”, mas especialmente para você, esse título significa muito. Você trocaria todos os seus títulos para ela estar aqui, você trocaria toda sua vitoriosa carreira para ela não ter partido. O que é um pai depois de perder sua filha? Não sei. Talvez um sobrevivente por engano, um ex-homem. Não há nada para descrever, não há nome, não tem profissão, norte, caminho, faltam palavras, adjetivos que descrevam o que é passar por isso.
Há 10 anos, vocês estavam em campo. Ela aos saltos, correndo, feliz; ele a sorrir. A felicidade parecia certa, sólida, firmada, definitiva. Vocês dois juntos ao troféu, uma fotografia em movimento, uma cena antes do corte, antes da tragédia que viria quatro anos depois. Hoje você vai para o gramado sem ela, você treina, comanda à beira do campo, responde nas coletivas aos jornalistas. É um homem a conter e a enfrentar um caos dia após dia dentro de si.
Hoje, Luis Enrique, tenho certeza que você fechou os olhos diante de um estádio lotado e em delírio. Tenho certeza que você sentiu ela outra vez perto, um sussurro, um leve toque nos ombros ou uma brisa leve no rosto. Você sentiu um amor que nunca saiu do lugar onde foi plantado. Luis Enrique e PSG: uma união perfeita! Luis Enrique colocou uma estrela importante no clube, mas hoje uma estrela ainda mais importante brilhou lá de cima, feliz pela conquista de seu pai. O futebol JAMAIS será só futebol.

Fonte: The Sporting News
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