Hoje, Dia 20 de Novembro, dia da Conscientização Negra, convido cada pessoa branca a parar, escutar não apenas com os ouvidos, mas com os sentidos, com a consciência humana. Porque o campo de futebol não é apenas grama, chuteiras e torcida: ele reflete a sociedade. E se a sociedade é marcada por desigualdades, por racismo, por opressões múltiplas, o futebol também o é.
Racismo no futebol: além das vaias

O esporte que une, que emociona, que transforma, também carrega traços de brutalidade simbólica e histórica. No futebol europeu e mundial, casos de abuso racial, gestos, cânticos, estereótipos evidenciam que o racismo ainda insiste no gramado e fora dele. Por exemplo: em pesquisa sobre comentários de transmissão da Premier League, notou-se viés racial persistente na forma como jogadores com pele mais escura são descritos.
O relatório da Professional Footballers’ Association alertou: “para lidar com o impacto real do racismo estrutural, temos que reconhecer e enfrentar o viés racial”
Ou seja: não se trata apenas de um isolado “grito de torcida” ou “ofensa individual”. Trata-se de sistema. Estrutura. Cultura.
Para você que lê: imagine entrar em um estádio, vestir a camisa do seu time, e ainda assim saber, mesmo antes da partida começar, que parte da torcida, da mídia ou dos próprios dirigentes pode não enxergar seu valor, mas ver sua raça. Imagine que, além das jogadas, você precisa lidar com expectativas dobradas, com olhares que questionam seu lugar, com o peso de representar “todos os negros” ou “todas as negras”. Essa reflexão existencial atravessa o gramado.
E é por isso que este texto não é só denúncia; é convite! Convite para uma consciência branca que se move, que escuta, que age.
E quando falamos de racismo no esporte, precisamos lembrar: há milhares de crianças negras, todos os dias, sonhando em vestir a camisa do seu time do coração, sonhando em ouvir seu nome ecoar no estádio, sonhando em transformar sua vida, a da sua família, por meio do futebol.
Mas o que significa crescer com esse sonho num mundo onde jogadores negros ainda são chamados de macacos nas arquibancadas?
O que significa treinar com brilho nos olhos e, ao mesmo tempo, assistir ídolos negros serem desumanizados ao vivo, em transmissão nacional?
Para uma criança negra, o racismo no futebol não é um caso isolado da televisão; é uma mensagem direta sobre o valor do seu corpo, da sua pele e do seu futuro.
É ouvir que “você é forte, mas não é inteligente, é perceber que mulheres negras quase não estão na mídia esportiva, é sentir que, mesmo jogando bola melhor que muitos, você terá que provar, explicar, justificar, mais do que qualquer criança branca ao seu lado.
Essa criança cresce sabendo que pode ser ídolo, sim, mas que antes terá de sobreviver ao olhar crítico, ao julgamento racial, à desconfiança, às diferenças de tratamento.
Quando uma criança negra vê um jogador levantar a voz contra o racismo, ela aprende que sua dignidade não é negociável.
Quando ela vê campanhas verdadeiras, mudanças reais, punições efetivas, ela entende que o mundo pode ser justo com ela também.
Mas quando tudo é silenciado, minimizado ou tratado como “normal do futebol”, ela compreende que o mundo não foi feito para protegê-la.
É por isso que essa luta não é só para jogadores profissionais.
É para todas as crianças negras que ainda acreditam que o futebol é lugar de sonho e que merecem um futuro em que o racismo não seja parte do percurso. E nós, adultos, imprensa, torcedores, sociedade, precisamos olhar para essas crianças com urgência: porque o futebol não é apenas formação técnica: é formação humana.
Conscientização branca e chamado à humanidade

À pessoa branca que lê: o que você vai fazer com o que leu? Vai fechar a aba e seguir a sua vida como se nada tivesse acontecido? Ou vai refletir: “como tenho me posicionado quando vejo um jogador ser alvo de insultos racistas? E quando a mídia comenta diferente um atleta negro ou percebe menos valor em um atleta negra?”
Quando você assiste, torce, comenta, existe uma responsabilidade humana. O esporte deve ser campo de inclusão, mas é também espelho da vida. O silêncio de quem poderia agir é uma escolha: a escolha de continuar reproduzindo a estrutura de exclusão.
Portanto: Reconheça que o racismo não é “lá fora”, no estádio de outro país, ele está aqui, no Brasil, no mundo, inclusive no futebol feminino, no futebol comunitário, no dia a dia de quem ama o esporte.
Um olhar de mulher negra: o que significa jogar, existir em meio ao jogo.

Ser mulher negra no mundo do futebol (ou no universo esportivo) é carregar múltiplas batalhas:
Lutar para existir num espaço historicamente dominado por homens brancos;
Ter que provar o talento, a competência, muitas vezes em contexto em que o racismo e o sexismo se entrelaçam;
Ver e sentir que as micro-agressões, os olhares, os questionamentos não são ocasionalidades, são parte de um tecido social que insiste em invisibilizar vozes negras femininas.
Para mulheres negras na esfera do futebol, como atletas, técnicas, jornalistas ou torcedoras, o confronto não é apenas com o racismo, mas também com o machismo, o silenciamento e a invisibilidade. A interseção de raça + gênero traz desafios próprios.
Entenda que mulher negra no futebol enfrenta duplo desafio, e que seu esforço não pode ser invisibilizado ou exotizado.
Use seu olhar de torcedor, de jornalista, de leitor, para questionar, para exigir justiça, para apoiar iniciativas que promovem igualdade, diversidade e respeito.
Essa interseccionalidade; raça, gênero, classe, precisa ser olhada como tal, não como soma simples.
O esporte como caminho para a mudança
Quando clubes usam campanhas anti-racismo, quando atos punitivos são estabelecidos, quando jogadores levantam o punho, quando treinadoras negras chegam e são valorizadas…tudo isso importa! Mas a mudança não ocorre apenas nas arenas ou nas manchetes: ela acontece no trato entre pessoas, no reconhecimento diário, na forma como formamos torcidas, como discutimos jogos, como valorizamos quem está na mídia, quem está fora dela.
E para nós, mulheres negras que amamos esse esporte, que respiramos esse campo, que fizemos e fazemos parte dele, este dia é também releitura. Releitura de dor, de resistência, de potência. Vamos reivindicar: visibilidade, respeito e equidade. No estádio, na redação, no púlpito da torcida.
Que o Dia da Conscientização Negra não seja apenas mais uma data marcada no calendário, que seja portal de reflexão, de diálogo, de ação concreta. Que a população branca entenda: não basta “não praticar racismo”; é preciso desconstruir privilégios, desaprender invisibilizações, ouvir vozes negras, e agir. Que o futebol, essa paixão que pulsa no Brasil e no mundo, se torne cada vez mais, terreno de liberdade, de pertencimento, de justiça.
E a você, mulher negra que lê: saiba que seu lugar é sagrado. No campo, na arquibancada, na crônica esportiva, nas colunas, na vida. Sua voz importa. Seu corpo importa. Seu talento importa. Que possamos, juntas, erguer a bola muito além dos 90 minutos rumo a um mundo mais humano.

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