Entre glórias e escândalos: a partida de José Maria Marin aos 93 anos

📸 Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

José Maria Marin, ex-presidente da CBF, morre aos 93 anos — legado marcado por glórias, escândalos e controvérsias

Uma manhã de domingo mais silenciosa para o futebol brasileiro porém um tanto quanto reflexiva. Faleceu aos 93 anos, em São Paulo, José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), figura histórica e polêmica da política e da gestão esportiva do país. Marin estava internado no Hospital Sírio-Libanês, após passar mal na noite de sábado (19). A confirmação de sua morte veio na madrugada de domingo. O velório ocorre aonda neste domingo, entre 13h e 16h, na Funeral Home, no bairro da Bela Vista, em São Paulo (SP)

A CBF, entidade que ele presidiu entre 2012 e 2015, divulgou nota lamentando sua partida e prestando condolências aos familiares.

Trajetória entre gramados e gabinetes

Antes de ocupar um dos cargos mais poderosos do futebol nacional, Marin foi jogador do São Paulo Futebol Clube na juventude, embora sem destaque profissional. Sua formação em Direito pela USP o levou para a política, onde construiu uma carreira sólida: foi vereador, deputado estadual, vice-governador e governador de São Paulo nos anos 1980 — tudo isso sob a sombra do regime militar, época que também marcou sua postura controversa.

No futebol, foi presidente da Federação Paulista de Futebol nos anos 1980 e chefiou a delegação da Seleção Brasileira na Copa de 1986. Já em 2012, assumiu a presidência da CBF após a renúncia de Ricardo Teixeira.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil



Copa do Mundo em casa, medalha no bolso e fim abrupto

Seu nome está diretamente ligado à organização da Copa das Confederações de 2013 e da Copa do Mundo de 2014, eventos que reacenderam o orgulho nacional — até a traumática derrota por 7×1 para a Alemanha. Em sua gestão, também decidiu pelo retorno de Felipão à Seleção Brasileira, demitindo Mano Menezes num movimento que, à época, dividiu opiniões.

Mas também foi sob seu comando que a CBF enfrentou críticas internas, escândalos e protestos nas ruas durante os megaeventos. Sua figura se tornou símbolo da falta de diálogo entre a entidade e o povo brasileiro.

Um episódio simbólico de sua postura foi o da “medalha embolsada”: em 2012, Marin foi flagrado guardando uma medalha destinada a um atleta durante a premiação da Copa São Paulo de Futebol Júnior — gesto que repercutiu nacionalmente.


Prisão, escândalo e queda

O que era poder, virou manchete. Em maio de 2015, Marin foi preso na Suíça numa operação conjunta do FBI e da Interpol que revelou o maior escândalo de corrupção do futebol mundial: o “Fifagate”. Condenado por fraude bancária, conspiração e lavagem de dinheiro, foi extraditado e julgado nos Estados Unidos, onde recebeu pena de 4 anos de prisão.

Cumpriu parte da pena até conseguir a soltura antecipada em 2020, por questões de saúde durante a pandemia. Seu nome foi banido da FIFA, e a sede da CBF, que levava sua assinatura, teve a placa removida no mesmo ano da prisão.

José Maria Marin deixando tribunal federal no Brooklyn/ Nova York em 2019, após se declarar inocente de acusações de corrupção no futebol Imagem: Brendan McDermid/Reuters



Um olhar feminino sobre o legado

Falar de José Maria Marin é também falar sobre os bastidores do poder, onde as decisões são tomadas por poucos e, muitas vezes, longe do olhar da maioria — especialmente das mulheres. Sua trajetória reflete o perfil de um dirigente de uma era marcada por posturas conservadoras, pouca transparência e exclusão da diversidade no esporte. Uma gestão onde o protagonismo feminino e a inclusão social raramente tinham vez.

Mesmo com todas as polêmicas, Marin representa um capítulo importante da história do futebol nacional, uma era de transição entre o comando velado e a pressão por renovação. Seu falecimento, mais do que encerrar uma vida, nos convida a refletir sobre os rumos da gestão esportiva no Brasil e a urgência de vozes plurais — femininas, jovens e éticas — nos espaços de decisão.

Para lembrar. E também questionar.

José Maria Marin deixa uma biografia extensa, marcada por conquistas, polêmicas e contradições. Entre o brilho das Copas e as sombras dos tribunais, ele foi protagonista de um tempo que, felizmente, começa a se transformar.

Que sua partida traga, além da lembrança, a consciência da responsabilidade de quem comanda o futebol brasileiro — para que as próximas histórias sejam feitas com mais justiça, integridade e representatividade.




Fontes: CBF, CNN Brasil, UOL, Piauí Hoje, DW, Wikipedia


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