Atlético-MG enfrenta turbulências financeiras em meio à nova era das SAFs no futebol brasileiro

Fotos: Pedro Souza/Galo

O Atlético Mineiro, clube que protagonizou um dos processos mais ambiciosos de profissionalização no futebol brasileiro com a implantação da SAF (Sociedade Anônima do Futebol), vive um momento de instabilidade financeira que acende um alerta no cenário esportivo nacional. Com um passivo estimado em R$ 1,4 bilhão — podendo ultrapassar R$ 2,3 bilhões, dependendo da metodologia de cálculo —, o Galo convive com atrasos em pagamentos, prejuízos operacionais e uma necessidade urgente de reestruturação de fluxo de caixa.

O rombo contábil que se aprofunda no clube mineiro ganhou os holofotes após uma entrevista de Rafael Menin, um dos controladores da SAF e herdeiro do grupo MRV. Segundo ele, o clube teve um prejuízo de R$ 40 milhões apenas no mês de junho de 2025, motivado pela baixa geração de receitas e pela demora na entrada de capital externo esperado ainda no primeiro semestre.

Apesar do possível aporte inicial de aproximadamente R$ 500 milhões por parte da Galo Holding — grupo que inclui os empresários Rubens e Rafael Menin — o Atlético segue lutando contra dívidas acumuladas, especialmente bancárias (R$ 507 milhões), tributárias (R$ 354 milhões no Profut) e com outros clubes por contratações (R$ 129 milhões).

“O uso de recursos próprios está fora de cogitação. Não podemos mais agir como torcedores apaixonados. O clube precisa andar com as próprias pernas”, declarou Rafael Menin em coletiva recente, reforçando a postura de gestão mais empresarial e menos emocional.

 Arena MRV e receitas antecipadas

A construção da Arena MRV, que também entrou no pacote de dívidas herdadas pela SAF, teve financiamento bancário de mais de R$ 400 milhões. Além disso, receitas futuras como naming rights (ou direitos de nome, referem-se à prática de uma empresa comprar ou alugar o direito de nomear um local ,estádio, arena, espaço cultural, etc. ou evento ,campeonato, festival, etc.) e camarotes foram antecipadas e lançadas como passivo contábil, inflando o valor total da dívida para os olhos do mercado.

De acordo com especialistas, parte dos R$ 2,3 bilhões estimados como dívida do Galo vem de créditos parcelados a receber e antecipações de receita, o que distorce a percepção pública sobre a real situação financeira.

 Comparativo com outras SAFs do Brasil

A situação do Atlético-MG contrasta com diferentes cenários entre as principais SAFs do país. O Botafogo, por exemplo, é considerado o case mais bem-sucedido até o momento. Sob o comando do empresário John Textor, o clube conquistou a Libertadores e o Brasileirão em 2024 e reduziu suas dívidas em mais de R$ 500 milhões. Com gestão agressiva e injeção de mais de R$ 400 milhões, tornou-se referência entre os clubes privatizados.

Outro exemplo é o Cruzeiro, que viveu a transição de Ronaldo para o empresário Pedrinho BH, com aportes que ultrapassam R$ 600 milhões. Apesar da saúde financeira mais robusta, os resultados esportivos ainda são tímidos.

Já o Bahia, comandado pelo Grupo City, apresenta estrutura sólida e plano de crescimento gradual, com aporte de know-how internacional e uma gestão alinhada com o modelo global do conglomerado. O Fortaleza, por sua vez, é a exceção à regra: mantém 100% do controle associativo, com administração altamente profissionalizada e superávit fiscal, mostrando que a SAF não é a única rota viável para a estabilidade.

O Vasco, por outro lado, ilustra os riscos do modelo: após promessas não cumpridas da 777 Partners, o clube entrou na Justiça e retomou parte do controle de sua SAF, em meio à crise de credibilidade.

 Valor de mercado não é sinônimo de saúde

Apesar dos desafios, o Atlético-MG possui a SAF mais valiosa do Brasil segundo estimativas recentes: R$ 3,387 bilhões, superando Botafogo (R$ 1,857 bi) e Cruzeiro (R$ 1,472 bi). Esse valor é impulsionado por ativos como a Arena MRV, torcida nacional, tradição esportiva e potencial de mercado.

Entretanto, o alto valor de mercado ainda não se traduz em estabilidade financeira. Para equilibrar as contas, o clube busca novos investidores e negocia uma captação externa que pode injetar mais de R$ 600 milhões até o fim do ano.

Rafael Menin admitiu que a SAF “não teve o desempenho esperado” no ritmo de quitação das dívidas e na profissionalização de processos. Houve atrasos em pagamentos de salários, bônus de atletas e parcelas de transferências, o que trouxe desgaste com a torcida e fornecedores.

A expectativa agora é concluir renegociações com bancos e encontrar um investidor de longo prazo que possa oxigenar as finanças da SAF. Até lá, o clube deve continuar operando sob forte restrição orçamentária, inclusive no mercado de transferências, o que pode prejudicar o rendimento do time em competições.

 Sombra do rebaixamento e risco estrutural

O Atlético-MG é um retrato de um modelo de gestão que, apesar da promessa de modernização, ainda enfrenta os vícios e gargalos históricos do futebol brasileiro. A SAF trouxe avanços estruturais, mas a dependência de capital externo, a herança de dívidas passadas e a volatilidade do mercado esportivo mostram que a profissionalização por si só não resolve tudo.

O sucesso da SAF alvinegra dependerá não só de aportes milionários, mas da capacidade de reequilibrar suas finanças, restaurar a confiança da torcida e construir, de fato, um modelo de gestão sustentável — como alguns dos seus concorrentes começam a alcançar.

Com um elenco mais enxuto, salários atrasados e incerteza sobre novos reforços, o Atlético-MG encara também desafios dentro de campo, um cenário que, se não revertido, pode resultar na queda de rendimento nos campeonatos e/ou até mesmo um possível rebaixamento,algo que seria catastrófico não apenas no aspecto esportivo, mas também no financeiro.

A queda representaria uma perda abrupta de receitas com televisão, bilheteria e patrocínio, aprofundando o déficit já preocupante da SAF. Aliada à dificuldade de atrair investidores e à redução da margem de manobra orçamentária, a perspectiva de descenso reforça o temor de analistas e torcedores: a falência técnica da operação, caso a SAF não consiga reagir nos próximos meses.

Ainda que os dirigentes neguem qualquer possibilidade de colapso, o clube vive uma encruzilhada em que a gestão empresarial precisa entregar mais que promessas: precisa garantir estabilidade esportiva imediata, sob o risco de o Galo transformar-se num dos primeiros grandes exemplos do insucesso de uma SAF no futebol brasileiro.

 

 


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