Quando a razão dá lugar ao instinto e a coerência é deixada no vestiário
Há momentos no futebol em que nem o mais experiente analista consegue explicar o que passa pela cabeça de um jogador. Na partida entre Corinthians e Mirassol, Memphis Depay protagonizou um desses lances que desafiam a lógica. Com o jogo empatado em 0x0 e o time vivendo uma fase turbulenta, o atacante holandês resolveu cobrar um pênalti com uma cavadinha displicente – o que permitiu a defesa do goleiro Walter. Fica a dúvida: era o momento para ousar? Para muitos torcedores, a resposta é um sonoro “não”.
O que mais espanta é que Depay não é um novato buscando aparecer. Com bagagem internacional e experiência em clubes grandes, dele se esperava decisão, não excentricidade. O Corinthians precisava da vitória, a torcida estava impaciente, e a situação pedia frieza, não vaidade. O pênalti desperdiçado virou símbolo de um time que parece desconectado da realidade, e de um jogador que confundiu confiança com desrespeito à urgência do momento.
Mas se Depay teve sua parcela de responsabilidade, os jogadores do Mirassol também não passaram ilesos. Logo após a defesa do goleiro, alguns partiram para cima do atacante com gestos agressivos que ultrapassaram o limite do aceitável. A cobrança pela ousadia alheia virou quase uma tentativa de humilhação pública, um exagero que destoa do espírito esportivo que tanto se prega.
Mais curioso ainda é que muitos desses mesmos atletas se mostram defensores aguerridos de brasileiros que sofrem represálias no exterior ao tentar dribles ousados ou lances plásticos. Quando é com os outros, chamam de “falta de respeito com o espetáculo”. Quando é aqui, reagem com fúria. A hipocrisia escancarada mostra que, além de talento com a bola, falta a alguns boleiros a coerência de princípios — e talvez um pouco mais de cabeça fria.
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