Brasil, sede da Copa do Mundo Feminina: cidades escolhidas, mulheres acolhidas?

O Brasil foi escolhido para sediar a próxima Copa do Mundo Feminina. Uma vitória histórica. Um marco. Uma chance de ouro. Mas… para quem, exatamente?

A pergunta é legítima. Porque, enquanto o país comemora o anúncio com discursos bem ensaiados e promessas institucionalizadas, as mulheres que fazem o futebol acontecer por aqui continuam esbarrando na mesma realidade: gramados precários, salários simbólicos (quando há), clubes sem estrutura, sem patrocínios as vésperas de iniciar suas competições, calendários atrasados ,enxutos e uma visibilidade que insiste em ser invisível.

As cidades-sede já foram definidas e, como toda uma cidade tem o chame em ser feminina, teremos a charmosa Recife, a vibrante Salvador, a imponente Brasília, a moderna Belo Horizonte, a acolhedora Cuiabá, a agitada São Paulo, a praieira Rio de Janeiro, a ensolarada Fortaleza e a apaixonada Porto Alegre como palcos desta grande competição. Mas as mulheres, essas ainda esperam ser. Acolhidas. Ouvidas. Valorizadas. Porque não basta abrir os portões do estádio se o vestiário ainda está trancado.

É curioso — para não dizer trágico — que um país com tantas estrelas no peito ainda trate seu futebol feminino como projeto social, e não como esporte profissional. As atletas brasileiras, que há décadas enfrentam o preconceito institucionalizado, não querem mais ser “resilientes”. Querem ser respeitadas.

A Copa é bem-vinda. A festa, merecida. Mas ela não pode continuar sendo usada como maquiagem institucional. É preciso que os investimentos não terminem no apito final. Que o legado não seja apenas uma planilha de marketing. Que a profissionalização não se restrinja a um punhado de clubes do eixo sul-sudeste. Que toda menina que chuta uma bola hoje possa, de fato, sonhar com um futuro digno no futebol — e não com um bico ou uma desistência estratégica.

Portanto, que venha a Copa. Mas que o Brasil também venha. Inteiro. Com políticas públicas, com fomento nas bases, com respeito trabalhista, com cobertura midiática séria. Com espaço para todas, e não apenas para as vitrines.

Afinal, sediar é fácil. Difícil é sustentar um futebol feminino que ainda luta para existir em seu próprio país. O Brasil ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo Feminina. Pena que ainda não concedeu às mulheres o direito de jogar, trabalhar, gerir, investir com dignidade em seu próprio país.

Aos leitores que assistiram ao discurso de Fernanda Lima em rede nacional, sabe que não foi só mais uma fala no meio de uma programação qualquer. Ela pegou o microfone e, com coragem e autenticidade, usou as palavras para desafiar o sistema. Em um momento de pura potência, a jornalista, mãe e mulher falou sobre o papel das mulheres na sociedade e as injustiças que ainda enfrentam — e claro, questionou de maneira contundente a forma como são constantemente rotuladas.

“Chamam de louca a mulher que desafia as regras e não se conforma”, começou Fernanda, e dali em diante ficou claro que seu discurso não seria apenas uma reflexão, mas uma chamada à ação. Ela tocou em um ponto fundamental: o quanto é fácil para a sociedade colocar as mulheres em caixinhas, rotulando-as de “loucas” sempre que decidem ir contra a corrente.

“Chamam de louca a mulher cheia de erotismo, de vida e de tesão. Chamam de louca a mulher que resiste e não desiste. Chamam de louca a mulher que diz sim e a que diz não”, disse, enquanto desafiava os padrões que tentam controlar e limitar as mulheres a uma versão padronizada de como elas devem ser.

Mas, não parou por aí. Fernanda foi além das palavras e fez um convite poderoso a todos: “Vamos sabotar as engrenagens deste sistema de opressão, homofóbico, racista, patriarcal, machista e misógino. Vamos jogar na fogueira as camisas de força da submissão e da repressão.” E, com uma voz cheia de determinação, concluiu:

“Nossa luta está só começando… PREPARE-SE! Porque esta revolução não tem volta!”

Se as mulheres sempre foram desafiadas a se conformar, a revolução que Fernanda convoca é a de quem finalmente se recusa a ficar em silêncio. Esse é o momento para transformar a indignação em ação. Como ela mesma disse, a revolução não tem volta. O movimento está só começando, e a coragem de levantar a voz é mais necessária do que nunca.

Por Marília Gabriela Gomes Borges


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