Gil Arruda Sports entrevista Gefferson Kern

Narrador da Formula Indy pela TV Cultura nos contou sobre a sua trajetória

” Salve-se quem puder”, ” Granada sem pino”, ” Colton Herta fazendo Colton Hertices”. Se você assiste automobilismo pela TV Cultura, conhece esses bordões. Gefferson, natural do Rio Grande do Sul, está na emissora desde 2021, quando iniciaram as transmissões da Formula Indy, após a categoria ficar por anos na BAND e falou sobre momentos na sua carreira desde que estreou na TV aberta. Confira como foi a entrevista:

Como surgiu a vontade de ser narrador esportivo e a oportunidade de trabalhar na TV Cultura?

Gefferson: Desde criança quando tinha torneios intercolegiais na escola eu fazia de conta que era o narrador. Quando me formei no colégio, me falavam que eu tinha um texto legal e uma voz legal, então decidi ir para a faculdade de jornalismo, e meu primeiro emprego foi em uma rádio. Sempre gostei de automobilismo e comecei a narrar em 2010, e a partir de 2015 a coisa foi pendendo do futebol para o automobilismo e aquilo foi virando uma paixão para mim. Fazia corridas de Kart, de arrancadas, de circuito. Eu fui evoluindo, até que em 2020 meu trabalho foi visto no Youtube no Endurance Brasil, primeira categoria nacional que fiz. Quando a Indy veio pra Cultura em 2021, veio a oportunidade, e fui dirigindo de Venâncio Aires no Rio Grande do Sul até São Paulo capital para levar minha mudança em uma viagem de quase 1500 km, onde saí de uma cidade de 70 mil habitantes no interior gaúcho que nasci e morei a vida toda, para uma das maiores metrópoles do mundo.

Gefferson nos estúdios da TV Cultura antes da transmissão de uma corrida. Créditos: Facebook

De quem foi a ideia de trazer o tema nostálgico da Indy que tocava nas transmissões das corridas nos anos 90 na TV Manchete e SBT para tocar na TV Cultura?

Gefferson: O tema da Indy não sei exatamente quem teve essa ideia. Era um tema que não era usado fazia muito tempo, que foi utilizado pela primeira vez na Rede Manchete em 1993, depois passando pelo SBT, e teve até uma versão repaginada na Record, e acho que a Rede TV! chegou a utilizá-lo. Foi uma grata surpresa quando vi que ele estava presente nas transmissões, tendo uma identificação muito grande com o público que assistia a categoria nos anos 90.

Na época que a Indy se dividiu entre a IRL e a CART qual categoria gostava mais de acompanhar?

Gefferson: Eu costumava acompanhar mais a CART, mas eu gostava da IRL porque acho que a Indy na época da divisão, a IRL de 1996 até 2000 com ovais, com pilotos americanos vindo de pistas de terra tem muito mais a ver com a essência da categoria do que foi a Champ Car que sucedeu a CART nos últimos anos ativa, onde ela não chegou a fazer nenhuma corrida em circuito oval,com a largada sendo parada, e aquilo parecia mais uma categoria europeia como a Formula 3000. A IRL parecia mais com a Indy dos anos 60, 70, mas a CART era a minha favorita. Ela mesmo na época da divisão com a Indy, não tendo as 500 milhas de Indianapolis, que é a maior corrida do mundo, foi fabulosa. Foi uma época maravilhosa dos anos de 1996 até 2001, e acho que nunca mais vamos ver no mundo uma categoria tão legal de automobilismo como foi a CART, especialmente nos anos 90.

Além da Indy, quais outras categorias de automobilismo você já narrou?

Gefferson: Eu já narrei muita coisa. As primeiras categorias que narrei foram Kart, e arrancadas lá no Rio Grande do Sul. Fiz provas regionais gaúchas como de Super Turismo, 12 horas de Tarumã, uma prova que amo de paixão. Do Endurance Brasil, cheguei na Indy, e sigo fazendo provas de arrancada principalmente no Spid, onde é uma pista padrão americana que fica em Itatiba no interior de São Paulo. Faço também Super Campeonato de GT dos Estados Unidos, e estou com o pessoal do Grande Prêmio fazendo transmissões incríveis no Youtube, onde já transmiti vitória do Felipe Nasr nas 24 horas de Daytona. Também fiz 24 horas de Le Mans, o WEC, campeonato mundial de Endurance da FIA. Graças a Deus fiz bastante coisa, e é um sonho de menino que se tornou realidade.

Tirando Indianapolis, qual a sua pista favorita na Indy e qual atualmente que não está mais no calendário que gostaria que voltasse algum dia?

Gefferson: Na Indy eu amo os ovais, e tirando eles acho que a pista mais legal atualmente é: Road America Elkhart Lake. Aquela pista é fenomenal. Uma pista de alta velocidade que fica no meio de uma floresta, que no ano passado teve uma corrida muito tática e intensa com a vitória do Will Power. Laguna Seca é muito legal também, por causa da clássica curva do saca rolhas. Teria muitas pistas que poderia voltar. Se eu fosse escolher só uma pra voltar ao calendário, seria o oval de Michigan, que era um circuito de velocidades altíssimas, que teve corridas inesquecíveis principalmente na época da CART nos anos 90, onde o Tony Kanaan conquistou sua primeira vitória na categoria nessa pista quando o italiano Maximiliano Papis que era o lider da prova, ficou sem gasolina na última curva, e o Tony conseguiu vencer. Oval escolheria Michigan e se fosse um misto seria Watkins Glen, que é uma pista maravilhosa e amo muito.

Qual é atualmente o piloto que você mais admira e que considera favorito ao título?

Gefferson: Candidato ao título esse ano considero o Alex Palou. Ele é impressionante, porque é um piloto muito frio, inteligente, não erra, e não perde pontos. Os carros da Chip Ganassi são muito bons, e ajuda muito também no desempenho do Alex, e juntando com o talento e inteligência dele nas pistas, o torna pra mim o favorito. Eu gosto muito de outros pilotos, como os mais jovens, que poderia citar o Colton Herta e o Pato O’Ward, porque eles tem um estilo de pilotagem mais agressiva. O Josef Newgarden acho um cara espetacular, implacável, que tem uma capacidade enorme de vencer corridas importantes. O Scott Mclaughlin, que tem uma carreira de superação, onde corria em provas na Austrália, e hoje possui a pole position mais rápida da história de Indianapolis. Aprendeu a pilotar muito bem os carros da Indy. Tem muitos pliotos com histórias legais, como o Will Power que foi campeão recentemente, que quase precisou se aposentar por conta de um grave problema familiar, não aposentou e voltou a vencer. Conor Daly que tem diabetes tipo 1, que é uma forma de diabetes muito agressiva, e que sempre está dando um jeito de conseguir sua vaga entre os pilotos. A Indy tem muitas histórias marcantes sobre a superação dos pilotos para conseguirem chegar onde estão atualmente.

Qual seu bordão favorito nas narrações das corridas?

Gefferson: Quando dá a largada eu digo: ” É hora do show”, e quando tem a relargada falo: ” O show tem que continuar”, que é uma referência a música The Show Must Go On do Queen. Quando algum piloto dá uma fechada mais forte costumo dizer ” Vai de retro” que era o nome da minha banda de rock. Outros como ” Salve-se quem puder”, ” Granada sem pino”, também gosto. Mas o que mais me impressionou foi meu bordão mais simples colar na mente das pessoas. Eu costumo falar também ” UAU” com uma certa entonação, e um dia estava em uma prova de arrancadas e uma pessoa chegou em mim e comentou ” Você que é o narrador que fala UAU?”. A gente acha que tem que elaborar um monte de coisas difíceis, mas menos é mais em muitos casos.

Quais as emoções que você sentiu ao narrar a vitória do Helio Castroneves nas 500 milhas de Indianapolis em 2021?

Gefferson: Talvez até hoje não tenha caído a ficha. Se tudo tivesse acabado hoje, já teria valido apena. Tinha acabado de chegar em São Paulo e aquela foi minha sexta prova na Indy. No dia da prova fiquei até imaginando os bordões que poderia falar se algum brasileiro ganhasse. E era minha grande prova na TV aberta, porque antes da Cultura, nunca tinha trabalhado em nenhuma emissora de televisão. O Helio fez uma entrevista comigo no aeroporto dias antes da corrida, super profissional, e educado, e de uma forma surpreendente venceu. Tinha acabado de sair da Penske, era a primeira prova dele fora da equipe, e não era nem o piloto fixo, ia fazer só algumas provas naquele ano. Pra mim foi um privilégio, porque temos uma história de mais de 40 anos da Indy no Brasil, e tem apenas cinco narradores que narraram vitórias brasileiras em Indianapolis e eu sou um deles. Além de mim, foram o Luciano do Valle, Teo José, Sérgio Mauricio, e o Lucas Pereira. E comigo aconteceu igual foi com o Teo, Lucas e o Sérgio, porque na primeira vez que narramos as 500 milhas, um brasileiro venceu. O Luciano não foi na primeira vez, mas ele fez corridas lendárias, como a primeira vitória de um brasileiro em Indianapolis, narrando quatro vitórias no total, com uma do Emerson Fittipaldi, duas do Helio, e uma do Tony Kanaan. As 500 milhas, sem demagogia, é uma coisa que me acompanha desde a infância. Amo a Indy, e eu fui de uma criança que acompanhava no sofá de casa, a um narrador que cobriu esse feito histórico que o Helio Castroneves conseguiu de se igualar aos maiores vencedores dessa corrida: AJ Foyt, Al Unser e Rick Mears, com quatro vitórias cada.

Ao lado de Dedê Gomez, comentarista que também fazia parte da equipe da transmissão do SBT da categoria nos anos 90.
Dedê comentou a Indy e também a CART após a divisão com a IRL, e agora faz parte da equipe de transmissão da TV Cultura. Créditos: Facebook


Descubra mais sobre Rádio Gil Arruda Sports

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário